Lembro que antigamente ia meter no microondas e praticamente comer com gosto de plástico. E da amiga dizendo que eu falava que cozinhar era para Amélias, que eu passava adiante e não sei o que mais. Percebo divertida que fiz as pazes com o lado de mim que gosta de cheiros, gostos e cores e acha que mereço do bom e do melhor. Antigamente não podia viver sem um filme no cinema por semana. Hoje, tirando menos, invisto em comida: pois demorei décadas para vivenciar e admitir que somos o que comemos. E minha professora de contação de histórias está certíssima: quando queremos cozinhar para nós, a auto estima está em dia. Outra colega de profissão e signo pipoca em meus ouvidos a recordação do que dizia: "gosta de cozinhar e de gato? Aê bruxinha"!
E as pazes não são só com esse lado. De uns tempos para cá tenho curtido fazer as unhas, prender o cabelo no alto, me maquiar até pra ganhar colírio no oftamologista e sair borrada, usar colar ganho de ex marida há milênios e por mais que o corpo precise de uma variedade de exercícios, só quero saber de dançar e ver o vestido ou saia rodopiarem no espelho ou sentir os tecidos sambando para lá e para cá.
Era uma mulher às avessas, quase que pagando para não precisar passar por rituais femininos típicos. Até rir e fazer terapia informal com manicure e depiladora eu encarei nos últimos tempos. Cozinhar pode ser mais transformador do que parece à primeira vista?
Em tempo: o chá é de blueberry, apaixonante!
Mas nem tudo são flores na área mais wicca da casa: tem lá uma massaroca de farinhas de maracujá e de uva, sucrilhos de açaí, tofu e açúcar esperando ser salva no liquidificador. Passei no sacolão mais natureba do bairro, mas nada de inspirador à vista... Nem Cristo vai encarar aquele fuzuê remexido e mal resolvido na pia...


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